Esquerda, direita e o Estado Crítico

Imagem: elaboração da autora com auxílio de inteligência artificial generativa, inspirada em diferentes capas da obra Brasil, colônia de banqueiros (1934), de Gustavo Barroso.

No papel, esquerda e direita ainda significam coisas diferentes.

A esquerda tende a defender mais proteção social, redução de desigualdades, fortalecimento de serviços públicos, direitos trabalhistas e maior atuação do Estado para proteger quem está em posição mais vulnerável.

A direita tende a defender mais liberdade econômica, propriedade privada, responsabilidade individual, redução da interferência estatal na economia, segurança, ordem e maior espaço para empresas e mercado.

No papel, as duas ideias podem ser defendidas com argumentos razoáveis.

Uma acredita que o Estado precisa proteger quem nasce em condições profundamente desiguais.

A outra acredita que liberdade econômica, produção e crescimento também são formas de gerar autonomia.

Bonito.

O problema começa quando saímos do papel.

Porque, no Brasil contemporâneo, grande parte dessa discussão virou outra coisa.

Virou Lula contra Bolsonaro.

Petista contra bolsonarista.

Comunista contra fascista.

Esquerda contra direita como se fossem times de futebol.

E enquanto a população discute qual político ama e qual político odeia, uma pergunta básica quase desapareceu:

o que exatamente essas pessoas estão entregando para a sociedade?

Porque não estamos falando de um Estado pequeno.

Não estamos falando de dez pessoas tentando administrar um país inteiro.

Estamos falando de décadas de continuidade institucional.

De enorme capacidade técnica.

De bilhões e trilhões de reais circulando.

De dados detalhados.

De estruturas municipais, estaduais e federais.

De milhares de autoridades encarregadas de legislar, executar, fiscalizar, julgar e administrar.

Então vale repetir:

décadas de continuidade institucional + enorme capacidade técnica + bilhões de reais + dados detalhados + estruturas municipais, estaduais e federais + milhares de autoridades encarregadas de legislar, executar e fiscalizar.

Nesse ponto, “falta de gente” não é uma explicação convincente para os problemas estruturais brasileiros.

Também não dá para explicar tudo apenas com:

“o Brasil é muito grande”.

“É complexo”.

“Existem opiniões diferentes”.

Claro que existem.

Essas coisas dificultam.

Mas quando um problema permanece durante 20, 30 ou 40 anos, atravessa governos de esquerda e direita, possui diagnóstico conhecido, orçamento recorrente e instituições dedicadas a ele, a pergunta precisa mudar.

Não basta perguntar:

por que ainda não resolveram?

É preciso perguntar:

o que mantém esse problema funcionando por tanto tempo?

Porque saúde ruim gera orçamento.

Educação ruim gera programa.

Violência gera operação.

Pobreza gera benefício.

Crime organizado gera estrutura de combate.

Dívida gera juros.

Campanha eleitoral gera bilhões em financiamento.

Problemas movimentam dinheiro.

Isso não significa que alguém necessariamente criou todos esses problemas de propósito.

Mas existe uma diferença enorme entre:

resolver um problema

e

administrar um problema permanentemente.

E talvez o Estado brasileiro tenha se tornado muito eficiente na segunda opção.

O problema continua.

Uma medida aparece.

A população respira um pouco.

O governo anuncia resultado.

A eleição chega.

O problema continua.

Outra gestão entra.

Novo programa.

Novo nome.

Nova propaganda.

Nova promessa.

O problema continua.

E assim passam décadas.

É importante dizer uma coisa.

Política social não é inútil.

Se uma família recebe um benefício e consegue comer, aquele dinheiro é importante.

Se uma pessoa consegue atendimento no SUS, aquilo importa.

Se alguém entra numa universidade pública, aquilo muda uma vida.

O problema é outro.

Resolver emergências não é a mesma coisa que alterar as estruturas que produzem permanentemente essas emergências.

Uma política pode aliviar sofrimento sem eliminar sua origem.

E é exatamente aí que começa a diferença entre discurso e transformação.

Uma esquerda que realmente estivesse comprometida com sua própria ideologia deveria ser julgada pela capacidade de reduzir desigualdade, ampliar autonomia, melhorar educação, saúde, renda e condições de trabalho.

Uma direita comprometida com sua própria ideologia deveria ser julgada pela eficiência administrativa, responsabilidade com dinheiro público, redução de desperdício, produtividade, segurança e funcionamento adequado do Estado.

Mas hoje?

Muitas vezes, ambos são julgados por outra coisa.

Quem fala melhor.

Quem mobiliza mais gente.

Quem domina as redes sociais.

Quem tem a militância mais barulhenta.

Quem cria o melhor inimigo.

Quem consegue convencer a população de que o grande problema do país é o outro lado.

Enquanto isso, o básico continua sendo básico demais para um país que já teve décadas para resolver.

Escola pública ainda enfrenta problemas graves.

Hospitais continuam sobrecarregados.

Saneamento ainda não chegou a todos.

Moradia continua inacessível para muita gente.

A violência continua produzindo medo.

O crime organizado continua crescendo.

E a população continua discutindo se a culpa é da esquerda ou da direita.

Talvez esteja na hora de fazer uma pergunta mais simples.

Quantas décadas mais um problema precisa continuar existindo para a gente parar de chamar isso apenas de dificuldade?

Porque o Estado brasileiro sabe coletar imposto.

Sabe cobrar multa.

Sabe organizar eleição.

Sabe controlar documentos.

Sabe fazer fiscalização.

Sabe calcular benefício.

Sabe distribuir dinheiro para partido.

Sabe criar fundo.

Sabe construir sistema digital.

Sabe localizar cidadão.

Sabe produzir estatística.

Sabe medir inflação.

Sabe medir pobreza.

Sabe medir desempenho escolar.

Sabe exatamente onde estão muitos dos problemas.

Então talvez o problema não seja simplesmente falta de conhecimento.

Também não parece ser simplesmente falta de gente.

E certamente não é falta de estrutura.

Talvez seja prioridade.

Talvez seja incentivo.

Talvez seja captura.

Talvez seja falta de responsabilização.

Talvez seja mais confortável administrar certos problemas do que realmente enfrentá-los.

E isso aparece até na política eleitoral.

O Brasil financia campanhas com bilhões de reais públicos.

Mas esse dinheiro não é distribuído igualmente.

Grande parte vai justamente para estruturas partidárias que já possuem representação.

Ou seja:

quem já está dentro recebe mais capacidade para continuar dentro.

Quem já possui representação recebe mais recursos para disputar novamente.

E depois chamamos isso de renovação política.

Ao mesmo tempo, o cidadão comum é convencido de que sua grande participação democrática acontece a cada eleição.

Escolhe um nome.

Aperta um botão.

E volta para casa.

Depois disso, partidos, gabinetes, Congresso, governos, tribunais, burocracias, empresas, grupos econômicos, organizações e interesses continuam disputando decisões durante quatro anos.

O eleitor participa por alguns minutos.

Os grupos organizados participam todos os dias.

Essa diferença importa.

Porque poder não depende apenas de quantidade.

Depende de organização.

Uma população de milhões de pessoas pode ter muito menos capacidade política do que um grupo relativamente pequeno com dinheiro, acesso, informação e objetivo claro.

Isso vale para empresas.

Vale para partidos.

Vale para setores econômicos.

Vale para organizações criminosas.

Vale para qualquer grupo que saiba exatamente o que quer.

Enquanto a população está dividida entre Lula e Bolsonaro, direita e esquerda, conservador e progressista, esses grupos trabalham em torno de interesses muito mais concretos.

Dinheiro.

Contrato.

Território.

Influência.

Benefício fiscal.

Acesso.

Proteção.

Regulação.

Poder.

Talvez por isso seja tão importante uma população bem educada.

Não porque todo cidadão precise virar especialista em política.

Mas porque uma democracia saudável depende de pessoas capazes de fazer perguntas simples.

Quanto custou?

Quem ganhou?

Quem perdeu?

Qual era a meta?

Foi cumprida?

Qual indicador melhorou?

Quem fiscalizou?

Por que continua ruim?

Mas quando educação é fraca e política vira identidade, a pergunta muda.

Em vez de:

o que esse político entregou?

vira:

você é de qual lado?

E nesse momento a política deixa de ser fiscalização.

Vira torcida.

O político deixa de ser funcionário da sociedade.

Vira ídolo.

A crítica vira ofensa pessoal.

O eleitor passa a defender quem deveria estar cobrando.

E talvez essa seja uma das maiores inversões do sistema político contemporâneo.

A população trabalha.

Paga imposto.

Financia a máquina.

Financia campanha.

Financia salários.

Financia estruturas.

Financia benefícios.

E ainda sente que deve agradecer quando recebe alguma coisa de volta.

Não.

Aquilo não é favor.

É dinheiro público.

É dever institucional.

É Constituição.

Depois de décadas, talvez a pergunta principal não devesse mais ser:

“você é de esquerda ou de direita?”

Talvez devesse ser:

o que você fez com o poder, o dinheiro, a estrutura e o tempo que recebeu?

Porque ideologia bonita no papel não paga aluguel.

Não atende hospital.

Não alfabetiza criança.

Não combate facção.

Não coloca comida na mesa.

Não melhora saneamento.

Não reduz desigualdade.

Resultado faz isso.

E depois de tantas décadas de governos diferentes, talvez seja hora de parar de avaliar políticos pela narrativa que representam.

E começar a avaliá-los pela distância entre aquilo que o Estado promete e aquilo que realmente entrega.

Porque, se não falta gente, não falta estrutura, não falta informação, não falta dinheiro circulando e não falta conhecimento técnico, resta uma pergunta bastante simples:

o que exatamente está impedindo que grande parte desses problemas seja resolvida?

E talvez a pergunta seguinte seja ainda mais importante:

quem continua ganhando enquanto eles nunca terminam?

Então talvez esquerda e direita ainda existam como ideias.

O problema é que, depois de décadas de governos que usam esses nomes, o cidadão deveria estar menos preocupado com o rótulo e mais interessado no resultado.

Porque o Estado brasileiro não é pequeno, improvisado ou recente. Estamos falando de décadas de continuidade institucional + enorme capacidade técnica + bilhões de reais + dados detalhados + estruturas municipais, estaduais e federais + milhares de autoridades encarregadas de legislar, executar e fiscalizar.

Nesse ponto, falta de gente não é uma explicação convincente.

Somando apenas a camada que conseguimos dimensionar de cargos políticos, magistrados, comissionados e funções de confiança, chegamos a aproximadamente R$ 87 bilhões por ano em remuneração-base. Considerando encargos, adicionais, benefícios e outros custos diretamente relacionados a pessoal, a estimativa sobe para algo entre R$ 110 bilhões e R$ 130 bilhões anuais.

O Bolsa Família, para comparação, transferiu aproximadamente R$ 159,5 bilhões em 2025.

O Fundo Eleitoral de 2026 recebeu quase R$ 5 bilhões.

E o auxílio-reclusão, que é pago aos dependentes do segurado preso e não ao preso, ficou abaixo de R$ 500 milhões anuais no último dado consolidado utilizado nesta análise.

Agora imagine uma prioridade diferente.

Com aproximadamente 19,3 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família, um benefício de R$ 3.500 mensais por família, independentemente da quantidade de filhos, representaria cerca de R$ 67,5 bilhões por mês, ou aproximadamente R$ 810 bilhões por ano.

É muito dinheiro.

Mas o Brasil arrecada, somando União, estados e municípios, mais de R$ 4 trilhões em tributos por ano.

Isso não significa que R$ 810 bilhões estejam disponíveis em uma gaveta.

Chegar a esse valor exigiria reorganização profunda: revisão de benefícios fiscais, redução de privilégios e penduricalhos, racionalização de cargos e estruturas administrativas, tributação mais progressiva, crescimento econômico e implantação gradual.

Mas significa que a discussão deixa de ser simplesmente:

“tem dinheiro?”

E passa a ser:

“qual é a prioridade dada ao dinheiro que já existe?”

Porque o cidadão financia tudo.

Financia Executivo.

Financia Legislativo.

Financia Judiciário.

Financia campanha.

Financia gabinete.

Financia salário.

Financia benefício fiscal.

Financia política pública.

Financia a estrutura que foi criada justamente para administrar a sociedade.

Então talvez a pergunta final não seja se o próximo governo será de esquerda ou de direita.

Talvez seja perguntar o que qualquer governo, independentemente do rótulo, pretende fazer com uma estrutura gigantesca que já existe, custa bilhões e teve décadas para produzir resultados.

E principalmente:

entre os mais de R$ 4 trilhões que a sociedade entrega anualmente ao Estado, quais prioridades justificam receber o dinheiro antes de garantir uma renda mínima capaz de dar alimentação, moradia e estabilidade às famílias responsáveis por crianças?

Porque depois de décadas de promessa, estrutura, orçamento e administração, talvez o problema já não seja descobrir se o Brasil possui recursos.

Talvez seja descobrir:

por que alguns destinos para o dinheiro público parecem sempre possíveis, enquanto garantir dignidade continua sendo apresentado como uma conta impossível.



Brunna Melo — Estratégia com alma, palavra com presença

Brunna Melo é estrategista de conteúdo, revisora, copywriter e guardiã de narrativas que curam. Atuou por uma década na educação pública, onde aprendeu, na prática, que toda comunicação começa com escuta. Sua trajetória une técnica e intuição, método e magia, estrutura e sensibilidade.

Formada em Relações Internacionais, mas também com formação técnica em Recursos Humanos e Secretariado, Brunna carrega ainda em seu percurso a pós-graduação em Diplomacia e Políticas Públicas e cursa a licenciatura em Psicopedagogia. Dos 16 aos 26 anos trabalhou na rede pública de Itapevi, onde desenvolveu um olhar atento às subjetividades, à inclusão e à palavra como ferramenta de transformação. Em 2019, realizou intercâmbio em Montreal, no Canadá, onde consolidou sua fluência em francês, inglês e espanhol, ampliando sua visão multicultural e espiritual.

Hoje, Brunna integra SEO técnico, copywriting consciente e comunicação simbólica para marcas e pessoas que desejam crescer com base, respeitando o tempo de quem lê e a verdade de quem escreve. Atua em projetos nacionais e internacionais com foco em posicionamento estratégico, revisão acadêmica, produção de conteúdo e construção de autoridade orgânica com profundidade e coerência.

Mas sua atuação vai além da técnica. Brunna é bruxa de alma antiga, com forte ligação à ancestralidade, aos ciclos e à linguagem como portal. Sua escrita é ritualística, sua presença é intuitiva e seu trabalho parte do princípio de que comunicar é também cuidar — é criar campos de confiança, abrir espaço para o sagrado e firmar digitalmente o que o corpo muitas vezes não sabe nomear.

Mãe, mulher neurodivergente, educadora e artista, Brunna transforma vivências em matéria-prima para narrativas com sentido. Seus textos não são apenas bonitos — são precisos, respeitosos, vivos. Acredita que conteúdo de verdade não serve só para engajar, mas para construir pontes, evocar arquétipos, gerar impacto real e deixar legado.

Atualmente, colabora com agências e marcas que valorizam conteúdo com presença, estratégia com alma e comunicação como campo de cura. E continua firmando um só compromisso: que toda palavra escrita esteja a serviço de algo maior.


Descubra mais sobre Universos da Bru

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

4.231 cliques

um projeto sobre consciência humana visto por múltiplas lentes

Sou Brunna

Bem-vindo ao meu espaço, onde compartilho reflexões sobre espiritualidade, relações internacionais e jogos de poder em diversas camadas da sociedade.

Falo também sobre escrita, SEO, AEO, GEO, EEAT, estratégia de conteúdo e a potência das narrativas que transformam.

Aqui, divido minha trajetória como estrategista e redatora SEO, mas também como mãe, educadora no ensino infantil e mulher em constante processo de autoconhecimento.

Acredito que escrever é mais do que comunicar: é criar presença, gerar impacto e registrar-se no tempo.

Te convido a acompanhar meus conteúdos e, quem sabe, encontrar aqui inspiração para construir a sua própria voz com autenticidade e propósito.

Let’s connect

POV: voce é assinante anual Universos no Substack
Brunna Aarão de Melo, Brunna Melo, SEO, AEO, Marketing Digital, Espiritualidade, Propósito, Amor Próprio, Narcisismo, Palavra Cantada.
outubro 2026
D S T Q Q S S
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Contacte-me

← Voltar

Agradecemos pela sua resposta. ✨

Apoie também:

Brunna Aarão de Melo, Brunna Melo, SEO, AEO, Marketing Digital, Espiritualidade, Propósito, Amor Próprio, Narcisismo, Palavra Cantada.
Anúncios
  1. Avatar de Desconhecido
  2. Avatar de Desconhecido
  3. Avatar de Desconhecido
  4. Avatar de Brunna Melo
  5. Avatar de affable3277a6269a

Sem a capacidade de pensar, não poderíamos ser convencidos — mas também nunca seríamos livres. Pensar nos torna vulneráveis à mentira; pensar melhor nos devolve a liberdade.