Zhenata yazdi samotna.
Neynoto minalo srazi ya.
Sreshtu voyskite ot tǎmen svyat
Voyuva za dobro tya.
Rogovi zvǎnove idat.
Naprayte pǎt na voina!
Tǎpani biyat vǎv ritǎm.
Princesata e pak tuka!
A mulher cavalga sozinha.
Seu passado a feriu / a derrotou.
Contra os exércitos de um mundo sombrio,
ela luta pelo bem.
Sons de trompas se aproximam.
Abram caminho para a guerreira!
Os tambores batem em ritmo.
A princesa está aqui de novo!
Kaval sviri, kaval sviri
Kaval sviri, mamo, (titi)
Gore, dole, mamo, (titi)
Gore, dole, mamo, (titi)
Kaval sviri, mamo, gore dole
Gore dole, mamo, pod seloto
Ja shte ida mamo da go vidja
Da go vidya mamo, da go chuja
Kaval sviri, mamo, gore dole
Gore dole, mamo, pod seloto
Ja shte ida mamo da go vidja
Da go vidya mamo, da go chuja
Titi, titi
Titi, titi
Ako mi e nashencheto
Shte go lubja den do pladne
Titi, titi
Den do pladne
Ako mi e jabandzhijche shte go lubja dor do zhivot
Ako mi e jabandzhijche shte go lubja dor do zhivot
Kaval sviri, kaval sviri
O kaval toca, mãe, titi
Lá em cima, lá embaixo, mãe, titi
Lá em cima, lá embaixo, mãe, titi
O kaval toca, mãe, lá em cima e lá embaixo
Lá em cima e lá embaixo, mãe, abaixo da aldeia
Eu irei, mãe, para vê-lo
Para vê-lo, mãe, para ouvi-lo
O kaval toca, mãe, lá em cima e lá embaixo
Lá em cima e lá embaixo, mãe, abaixo da aldeia
Eu irei, mãe, para vê-lo
Para vê-lo, mãe, para ouvi-lo
Titi, titi
Titi, titi
Se ele for um dos nossos,
Eu o amarei do dia até o meio-dia
Titi, titi
Do dia até o meio-dia
Mas se ele for estrangeiro,
Eu o amarei até o fim da vida
Mas se ele for estrangeiro,
Eu o amarei até o fim da vida
O kaval toca, o kaval toca
Bruxaria, memória e o direito de interpretar o sagrado
Durante muitos anos, escutei essas palavras sem conhecer sua tradução.
O tema de Xena: A Princesa Guerreira fez parte da minha infância. Eu ainda não sabia que aqueles versos eram cantados em búlgaro, não conhecia sua relação com os Bálcãs e não possuía vocabulário para explicar por que aquela sonoridade me atravessava tão profundamente.
Os versos apresentam uma mulher que cavalga sozinha. Seu passado a feriu, mas não encerrou sua história. Ela continua avançando e lutando. Trompas e tambores anunciam sua chegada e pedem que abram caminho para a guerreira.
Kaval Sviri, a segunda música desta abertura, é uma canção tradicional búlgara. Seu título anuncia que o kaval está tocando. O kaval é uma flauta pastoril presente em diferentes regiões dos Bálcãs e territórios próximos. Na canção, uma jovem escuta o instrumento além da aldeia e decide sair para ver e ouvir quem o toca.
Essas músicas também abrem o meu BOS, o Book of Shadows de Diana Aldebaran.
Elas representam dois movimentos da consciência: transformar a experiência do passado em direção e reconhecer um chamado antes de compreender completamente sua origem.
Algo semelhante aconteceu com meu hiperfoco em crocodilos e, posteriormente, nos crocodilianos como grupo de animais. Muito antes de estudar o Egito ou estabelecer qualquer relação espiritual com Sobek, esses animais já despertavam em mim um interesse profundo.
Xena, a Bulgária e os crocodilianos parecem assuntos distantes. Entretanto, todos demonstram como certos símbolos podem chegar antes da explicação.
Por isso, uma orientação presente no meu BOS é observar os hiperfocos da infância, os animais, as culturas, as histórias e os arquétipos que sempre retornaram à nossa atenção.
Isso não significa transformar tudo em presságio ou abandonar o pensamento crítico. Significa reconhecer que a consciência também se manifesta por recorrências, interesses, sonhos, sensações e perguntas que nos acompanham durante muito tempo.
Primeiro veio a vibração. Depois vieram o estudo, o discernimento e o sentido.
A bruxaria começa antes do ritual
Quando pensamos em bruxaria, é comum imaginarmos velas, altares, ervas, cristais, caldeirões e oráculos.
Esses elementos podem fazer parte da prática, mas não são seu fundamento.
A primeira ferramenta da bruxa é a própria consciência.
Antes do círculo traçado no chão, existe o corpo. Antes do feitiço, existe a intenção. Antes do oráculo, existe a pergunta. Antes da escolha de uma divindade, existe a necessidade de compreender por que determinada presença nos chama.
A bruxaria começa quando observamos:
- nossos padrões;
- as respostas do corpo;
- os sonhos;
- os ciclos;
- os vínculos;
- a ancestralidade;
- as repetições familiares;
- a relação com o território;
- os animais e símbolos recorrentes;
- e as narrativas que orientam nossas decisões.
Quem não se observa pode confundir medo com intuição, repetição com destino ou intensidade com evolução. Também pode entregar sua vontade a uma autoridade, um oráculo, uma entidade ou uma promessa espiritual.
Autonomia não é rejeitar orientação. É não abandonar a responsabilidade sobre aquilo que escolhemos seguir.
Também não é acreditar que tudo pode ser controlado magicamente. Existem violências, desigualdades, traumas, estruturas sociais e limites materiais. A magia não exige que neguemos a realidade.
Ela nos oferece instrumentos para atravessá-la com mais presença.
Magia não é a caricatura criada sobre ela
Quando falamos em magia, não estamos falando de pessoas voando em vassouras, lançando raios pelas mãos ou reproduzindo efeitos de cinema.
Essas imagens pertencem à fantasia e à caricatura.
Magia é mais profunda.
Ela pode estar na palavra pronunciada com intenção, no sonho interpretado, na leitura de um oráculo, no conhecimento das plantas, na proteção de uma casa, na observação dos ciclos, no contato com ancestrais, na consagração de um objeto, no encantamento, na oração, no símbolo, no rito e na relação consciente com forças visíveis e invisíveis.
Também não existe contradição entre reconhecer práticas mágicas e manter discernimento. Sonhos podem carregar mensagens, mas precisam ser interpretados. Oráculos podem orientar, mas não devem substituir escolhas. Uma experiência espiritual pode ser verdadeira e, ainda assim, exigir reflexão sobre seu significado.
O problema de Salem não foi acreditar que sonhos, visões ou magia existiam.
O problema foi utilizar acusações e interpretações como provas incontestáveis, sem permitir defesa, contexto ou discernimento.
Antes da caricatura
Antes de ser transformada em personagem monstruosa, a bruxaria existia como forma de leitura da vida.
Suas raízes estão ligadas à observação da Lua, das estações, das colheitas, da fertilidade, dos animais, das plantas, dos sonhos, do nascimento, da morte e das passagens humanas.
Em muitas comunidades, o espiritual não estava separado do cotidiano. Curar, plantar, colher, proteger uma casa, acompanhar um parto, interpretar um sonho e cuidar dos mortos podiam fazer parte de uma mesma relação com o mundo.
As pessoas que exerciam essas funções recebiam nomes diferentes em cada cultura: parteiras, benzedeiras, curadores, erveiras, sacerdotisas, oraculistas, adivinhos, astrólogos ou intérpretes de sonhos.
Essas palavras não são sinônimos perfeitos. Cada tradição possui história, linguagem e limites próprios. Ainda assim, revelam uma realidade antiga: sempre existiram pessoas reconhecidas por sua capacidade de preservar conhecimentos e interpretar o invisível.
Quando intérpretes do sagrado aconselhavam governantes
A pessoa capaz de interpretar sinais nem sempre ocupou uma posição marginal.
Em diferentes sociedades antigas, reis, comandantes e outras lideranças consultavam oráculos, sacerdotes, astrólogos, adivinhos e intérpretes de sonhos.
Guerras, alianças, sucessões, viagens, fundações de cidades e plantios podiam ser avaliados pela observação dos astros, dos presságios, dos sonhos e da vontade divina.
Um exemplo conhecido aparece na tradição bíblica por meio de José do Egito.
Em Gênesis, o faraó sonha com sete vacas gordas devoradas por sete vacas magras e com sete espigas cheias consumidas por sete espigas ressequidas. José interpreta as imagens como anúncio de sete anos de abundância seguidos por sete anos de fome.
Sua interpretação não permanece no campo privado. Transforma-se em política econômica, agrícola e alimentar. Recursos são armazenados durante a abundância para que o território atravesse a escassez.
José deixa a prisão e se aproxima do centro do poder porque possui um conhecimento que o governante necessita: a capacidade de receber, interpretar e traduzir uma mensagem dos sonhos em ação concreta.
Ele não precisa receber o nome de bruxo para que reconheçamos a natureza oculta dessa experiência. José atua como intérprete de sonhos, leitor de símbolos e mediador entre o invisível e a matéria. Sua história também demonstra que alguém colocado à margem pode carregar um conhecimento que o centro não possui.
Por isso, a marginalização da bruxaria não pode ser explicada como simples passagem da superstição para a racionalidade. Conhecimentos astrológicos, alquímicos, simbólicos e ritualísticos continuaram circulando entre elites religiosas, políticas e intelectuais enquanto práticas populares eram classificadas como ameaça.
A questão nem sempre foi a existência da magia.
A questão era quem possuía autorização para interpretá-la e utilizá-la.
Como a magia sobreviveu nos Bálcãs
Os Bálcãs formam uma região marcada por fronteiras móveis e sobreposições culturais. Seus territórios receberam influências trácias, eslavas, gregas, romanas, bizantinas, otomanas, cristãs, islâmicas e judaicas.
Não existe, portanto, uma única bruxaria balcânica homogênea.
Existem práticas locais, familiares, agrárias e comunitárias, transformadas de acordo com cada território.
Durante longos períodos, a vida rural dependeu da terra, da água, das colheitas, da criação de animais, da cura de doenças, da proteção da casa, do nascimento de crianças e do cuidado com os mortos.
A magia popular respondia a necessidades concretas. Ela aparecia no parto, nas ervas, nos encantamentos, na proteção contra o mau-olhado, nos amuletos, nos sonhos, na fertilidade e nos ciclos agrícolas.
Não era uma atividade separada da vida. Era uma forma de enfrentar doença, luto, instabilidade e sobrevivência.
Bulgária: canto, cura e proteção
Na Bulgária, fórmulas verbais, plantas, água, fios, cores e objetos domésticos podiam participar de práticas de cura e proteção.
A força de um encantamento não estava somente nas palavras. Podia depender de quem o realizava, do momento escolhido, do lugar, do movimento e dos materiais empregados.
Música e dança também preservavam memória. O canto transportava histórias, conhecimentos e estruturas culturais por meio da oralidade.
Kaval Sviri demonstra como essa memória pode atravessar fronteiras. A língua búlgara chegou à minha infância por meio de Xena. Mais tarde, o estudo revelou aquilo que a memória já havia guardado.
Romênia: encantamentos, espiritualidade viva e profissão
Na Romênia, encontramos tradições de encantamentos, cura, proteção, plantas, fórmulas verbais e relação com presenças espirituais.
Essas práticas atravessaram mudanças religiosas e políticas, convivendo também com santos, cruzes, orações e elementos cristãos.
Entre as presenças do imaginário espiritual romeno estão as Iele, entidades femininas relacionadas à natureza, à dança, ao encantamento, aos tabus, ao perigo e, em determinadas narrativas, à enfermidade e à cura.
As Iele possuem natureza própria dentro das tradições romenas. Compreendê-las exige respeito ao seu contexto, sem apagar sua complexidade por meio de equivalências apressadas.
A presença da bruxaria na Romênia não pertence apenas ao passado.
Mulheres que se apresentam como vrăjitoare continuam oferecendo leituras, rituais e serviços espirituais. Muitas utilizam atualmente sites, redes sociais e consultas por vídeo, demonstrando que uma tradição pode adaptar sua forma de atuação sem abandonar sua identidade.
Em 2011, atividades de bruxas, astrólogos e profissionais de adivinhação passaram a ser enquadradas no sistema tributário romeno como trabalho autônomo. Isso significou declaração de renda, tributação e contribuições, de maneira semelhante a outras profissões independentes. Não se trata de um “CNPJ” igual ao brasileiro, mas de reconhecimento fiscal da atividade profissional.
Esse enquadramento gerou reações diferentes entre as próprias bruxas. Algumas o interpretaram como legitimação profissional; outras protestaram contra a intervenção do Estado. A diversidade dessas respostas também mostra que não existe uma única posição entre as praticantes.
Vlad Țepeș e a disputa pela memória romena
Outra figura importante para compreender como narrativas externas podem simplificar a história romena é Vlad III da Valáquia, conhecido como Vlad Țepeș, o Empalador.
Vlad é uma figura profundamente controversa. Seu governo utilizou métodos extremamente violentos, incluindo o empalamento. Essa violência não deve ser apagada ou transformada em detalhe folclórico.
Ao mesmo tempo, parte da memória romena o reconhece como governante que resistiu à expansão do Império Otomano — uma potência islâmica que avançava sobre a região — e defendeu a autonomia da Valáquia. Sua posição histórica não foi linear: em diferentes momentos, relações políticas na região envolveram apoio, submissão, reféns, tributos, alianças e confronto com os otomanos.
Por isso, Vlad pode aparecer simultaneamente como governante brutal, personagem da resistência regional e figura apropriada posteriormente pelo imaginário estrangeiro.
A associação direta entre Vlad e o vampiro Drácula foi consolidada principalmente pela cultura literária posterior. Ela ajudou a transformar uma história política complexa em personagem de terror.
Essa transformação conversa com a própria caricatura da bruxaria: o olhar externo seleciona os elementos mais assustadores, retira o contexto e devolve ao mundo uma figura mais fácil de consumir.
A forte presença contemporânea da bruxaria romena não pode ser atribuída somente a Vlad ou à resistência contra os otomanos. Ela resulta de processos mais amplos: continuidade familiar, espiritualidade popular, adaptação, transmissão oral, identidade cultural e sobrevivência nas margens.
Quando a magia deixou do centro
Com a cristianização, muitas práticas antigas foram condenadas, absorvidas ou reinterpretadas.
Divindades foram aproximadas de santos. Festas agrícolas foram incorporadas a calendários religiosos. Encantamentos passaram a conviver com orações, cruzes, salmos e ícones.
Houve repressão. Também houve adaptação.
Uma prática que atravessa séculos muda de nome, linguagem e contexto. Isso não significa que sua estrutura espiritual tenha desaparecido.
Enquanto práticas populares eram perseguidas, elites continuavam estudando astrologia, alquimia, hermetismo e forças ocultas da natureza.
A Nova Inglaterra do século XVII também conhecia magia. Registros mostram interesse por cura mágica, adivinhação, encantamentos amorosos, localização de objetos perdidos, astrologia, livros de magia e objetos de proteção.
Pessoas influentes podiam estudar alquimia e magia natural sem receber o mesmo tratamento destinado a praticantes populares. John Winthrop Jr., governador de Connecticut, foi alquimista e interveio de modo a reduzir condenações por bruxaria em sua colônia. Isso demonstra que ocultismo, política e religião não ocupavam mundos completamente separados.
Esse contraste sustenta uma pergunta legítima:
Por que o conhecimento oculto podia ser respeitado quando praticado por homens instruídos e politicamente protegidos, mas se transformava em prova de perigo quando associado a pessoas sem a mesma proteção?
Não possuímos documentação suficiente para afirmar que os julgamentos de Salem foram um plano coordenado de eliminação de concorrentes mágicos. Entretanto, podemos afirmar que havia uma diferença de poder entre magia autorizada e magia perseguida.
A margem preservou aquilo que o centro procurou controlar.
Salem: território, guerra e perseguição
Salem não começa em 1692.
Antes dos ingleses, o território era Naumkeag, ligado a povos do universo cultural dos Massachusett. Os colonizadores chegaram em 1626 e transformaram um local indígena tradicional de pesca em posto colonial. O nome Salem foi associado a Jerusalém e à ideia de “cidade de paz”.
A mudança de nome fazia parte de uma reorganização territorial, política e espiritual.
Colonizar não é apenas ocupar a terra. É substituir nomes, memórias e formas legítimas de interpretar o território.
A expansão colonial e as guerras atingiram duramente os povos indígenas, provocando mortes, deslocamentos e destruição comunitária. Esses conflitos também produziram medo, trauma, refugiados e instabilidade entre os colonos.
A historiadora Mary Beth Norton relaciona a crise de Salem ao impacto das guerras na fronteira entre colonos e povos indígenas. Pessoas envolvidas nas acusações haviam vivido ou testemunhado conflitos no Maine e em outros territórios de fronteira. O medo da guerra passou a alimentar a linguagem de ameaça espiritual.
A guerra não explica tudo, mas ajudou a criar um ambiente de medo, escassez e busca por inimigos.
O puritanismo como sistema social
Os puritanos não levaram apenas uma fé privada para a Nova Inglaterra. Levaram um projeto de sociedade.
Religião, governo, família, trabalho, comportamento e reputação formavam um mesmo sistema. O pecado individual podia ser entendido como perigo coletivo.
Esse modelo produziu identidade e coesão, mas também vigilância e dificuldade de conviver com o desvio.
Em 1692, conflitos humanos, doenças, traumas, rivalidades e comportamentos fora da norma foram traduzidos como ameaça espiritual.
As primeiras pessoas acusadas incluíram Tituba, uma mulher escravizada; Sarah Good, em situação de pobreza; e Sarah Osborne, envolvida em conflitos patrimoniais e afastada da participação regular na igreja.
Existiam praticantes de magia em Salem?
Práticas mágicas existiam em Salem e na Nova Inglaterra.
A adivinhação com clara de ovo em um copo de água era conhecida. Encantamentos, astrologia, amuletos, curas mágicas e objetos de proteção circulavam entre a população.
Portanto, não faz sentido afirmar que a magia não existia ou que ninguém naquela sociedade mantinha práticas espirituais próprias.
O que os registros não permitem é identificar com segurança quantas pessoas executadas praticavam magia, quais práticas realizavam em segredo ou como se nomeavam.
Os documentos foram produzidos por autoridades interessadas em encontrar pacto demoníaco, não em registrar honestamente a espiritualidade dos acusados. Além disso, práticas marginalizadas sobrevivem justamente pela discrição. A ausência de confissão nos termos do tribunal não prova ausência de magia.
Algumas pessoas acusadas podem ter realizado encantamentos, adivinhações, curas ou formas de proteção. Outras podem não ter praticado nada semelhante. Todas foram julgadas dentro de um sistema que transformava sua própria definição de bruxaria em crime.
O erro é aceitar a definição dos perseguidores como se ela fosse a definição da bruxaria.
Bruxaria não é voo físico em vassoura, pacto demoníaco ou emissão de luz por uma varinha.
É relação com o invisível, interpretação, intenção, conhecimento, proteção, cura, encantamento e consciência.
A caricatura como arma
Ao longo da crise, aproximadamente duzentas pessoas foram acusadas. Dezenove foram enforcadas, Giles Corey morreu sob esmagamento por pedras e outras pessoas morreram na prisão.
A perseguição atingiu pessoas reais, algumas possivelmente ligadas a práticas mágicas e outras arrastadas por conflitos, acusações ou vulnerabilidade social.
O ponto não é negar a existência de bruxas.
É recusar que os tribunais puritanos possuíssem autoridade para definir o que uma bruxa era.
A figura demoníaca fabricada pelos acusadores serviu para apagar a complexidade das pessoas acusadas e tornar a violência aceitável.
A bruxa foi representada como inimiga da fé, ameaça às crianças, causadora de doenças, mulher perigosa, figura grotesca ou pessoa incapaz de produzir conhecimento legítimo.
Essas imagens atacavam especialmente conhecimentos ligados ao corpo, ao parto, às ervas, à morte, à sexualidade e à relação direta com o invisível.
Hoje, a bruxaria também pode ser esvaziada pela mercantilização.
Símbolos viram acessórios. Divindades viram estética. Rituais são vendidos como soluções instantâneas. A magia é reduzida à promessa de controlar pessoas e acontecimentos.
Demonização e mercantilização parecem opostas, mas podem produzir o mesmo resultado: afastar a bruxaria da consciência, da responsabilidade e do conhecimento.
Consciência soberana e autonomia espiritual
Consciência soberana é autonomia com responsabilidade.
Ela não significa rejeitar mestres, tradições, livros, religiões ou comunidades. Significa que nenhuma dessas referências deve substituir completamente nossa capacidade de discernir.
O ego espiritual aparece quando alguém:
- afirma possuir acesso exclusivo à verdade;
- utiliza títulos para impedir questionamentos;
- transforma dons em espetáculo;
- usa medo ou culpa para produzir obediência;
- ou cria dependência entre líder e seguidor.
A consciência soberana permite perguntas. O ego espiritual as proíbe.
A consciência soberana orienta sem dominar. O ego espiritual exige submissão.
O objetivo não é negar o sagrado.
É impedir que o sagrado seja utilizado contra a consciência.
Cristo, gnose e o despertar da consciência
Na visão gnóstica, Cristo não aparece apenas como aquele que morre pelos pecados humanos.
Ele também é o mensageiro que desperta a consciência e recorda ao ser humano que o acesso ao sagrado não pertence exclusivamente a templos, sacerdotes ou instituições.
O Demiurgo representa uma autoridade limitada que se considera absoluta. Os Arcontes sustentam seu mundo por meio do medo, da culpa, da ignorância e da submissão.
Essas figuras não precisam ser compreendidas somente como seres externos. Também podem simbolizar sistemas, relações e estruturas internas que tentam nos convencer de que não somos capazes de perceber, interpretar ou acessar o divino por nós mesmos.
O nome Sananda pertence a correntes esotéricas modernas e não aparece nos antigos textos gnósticos. Ainda assim, sua imagem se aproxima simbolicamente desse Cristo que ultrapassa a instituição: uma consciência de amor, lucidez e libertação.
Essa leitura também se aproxima da bruxaria.
Ambas recordam que o conhecimento espiritual precisa ser vivido, não apenas obedecido. O verdadeiro mestre não ocupa o lugar da consciência. Ele oferece instrumentos para que ela desperte.
O sagrado não precisa ser concedido por uma autoridade.
Precisa ser reconhecido, vivido e despertado.
Espiritualidade livre não é controle de massas
Religião e espiritualidade não são, por natureza, instrumentos de opressão. Elas podem oferecer comunidade, memória, ética, consolo e sentido. O problema começa quando uma instituição, uma liderança ou um sistema de crenças utiliza o sagrado para afastar as pessoas da própria consciência.
O controle espiritual costuma seguir alguns movimentos reconhecíveis: convencer alguém de que é impotente; afirmar que somente uma autoridade possui a verdade; transformar perguntas em pecado ou deslealdade; usar o medo de punição para exigir obediência; e criar conflitos contra quem acredita, pratica ou interpreta de outra maneira.
Quando isso acontece em grande escala, a fé deixa de ser encontro e se transforma em tecnologia de controle de massas.
Mas essa crítica não se dirige apenas às religiões organizadas. Comunidades esotéricas, grupos de bruxaria, mestres espirituais, terapeutas, influenciadores e até discursos que se apresentam como libertadores podem repetir a mesma estrutura. Basta que alguém diga:
“Somente eu conheço a verdade. Somente eu posso proteger você. Sem mim, você estará perdido.”
Trocar um dogma religioso por um dogma espiritual não é liberdade.
Por isso, o que defendemos é uma espiritualidade livre: uma relação com o sagrado que não dependa da diminuição do ser humano, da fabricação de inimigos ou da entrega da própria vontade.
Espiritualidade livre não significa ausência de estudo, tradição, compromisso ou comunidade. Significa poder aprender sem se ajoelhar diante do medo; pertencer sem desaparecer; rever crenças sem ser ameaçado; e reconhecer que nenhum livro contém sozinho toda a experiência do sagrado.
Uma tradição saudável oferece raízes, mas não constrói uma prisão.
Um mestre saudável compartilha instrumentos, mas não sequestra a percepção.
Uma comunidade saudável fortalece vínculos, mas não exige a destruição da individualidade.
E uma prática espiritual saudável amplia a consciência em vez de substituí-la.
Não precisamos aceitar teorias conspiratórias como explicação total do mundo para reconhecer que o medo, a culpa, a propaganda e a repetição podem ser usados para conduzir coletivamente o pensamento.
A resposta a isso não é trocar uma narrativa absoluta por outra. É cultivar discernimento, acesso ao conhecimento, responsabilidade e liberdade de consciência.
O sagrado que defendemos não deseja massas obedientes.
Deseja pessoas despertas, inteiras e capazes de escolher.
Sobek: o crocodiliano, a margem e o instinto consciente
Meu encontro com Sobek começou com os crocodilianos.
Sobek é uma divindade egípcia relacionada ao Nilo, à fertilidade, à proteção, à força vital e ao poder real. Seu culto teve grande importância no Faium e em Shedet, chamada de Crocodilópolis pelos gregos. Também foi cultuado em Kom Ombo e recebeu associações como Sobek-Rá e Sobek-Hórus.
O crocodilo reúne forças aparentemente contraditórias.
O Nilo alimentava e fertilizava a terra, mas suas águas também guardavam predadores e perigos. Sobek habita essa fronteira: vida e dentes, fertilidade e ameaça, proteção e instinto.
O crocodilo é um animal da margem. Vive entre terra e água. Observa, espera, economiza energia e age com precisão.
Sobek representa, no meu caminho, o instinto integrado à consciência.
A espiritualidade não exige que neguemos o corpo, a raiva, o desejo ou o impulso de proteção. Essas forças tornam-se perigosas quando agem sem consciência.
Sobek ensina:
- proteção sem paranoia;
- força sem violência gratuita;
- instinto sem descontrole;
- silêncio sem submissão;
- e presença sem arrogância.
Ele não ensina o praticante a devorar o mundo.
Ensina-o a não ser devorado por ele.
Da Wicca à bruxaria gnóstica
Minha trajetória pagã também foi uma busca por linguagem.
A Wicca me aproximou dos ciclos, dos elementos, da Deusa, do Deus, da Lua e da disciplina espiritual.
A bruxaria natural aprofundou minha relação com plantas, corpo, energia e cotidiano.
Na bruxaria gnóstica, encontrei uma forma de reunir prática, estudo, responsabilidade e autonomia.
Gnose não é somente informação. É conhecimento capaz de transformar a percepção.
Na bruxaria gnóstica, o objetivo não é apenas realizar rituais ou movimentar energia.
O objetivo é desenvolver consciência.
Magia sem consciência pode se transformar em impulso ou manipulação. Conhecimento sem prática pode se transformar em discurso vazio.
Respeitar não é obedecer cegamente.
Estudar não é copiar tudo.
Ter fé não é abandonar a própria percepção.
Quando o controle utiliza a linguagem espiritual
A autoridade que tenta ocupar o lugar da consciência não aparece apenas em religiões e instituições.
Ela também pode aparecer dentro de uma relação amorosa.
Pessoas manipuladoras podem se aproximar de quem demonstra sensibilidade, desejo de cuidar, abertura espiritual e disposição para perdoar. Essas características não tornam bruxos e bruxas naturalmente vulneráveis, mas podem ser exploradas quando não estão acompanhadas de limites.
Não precisamos de um diagnóstico para reconhecer comportamentos destrutivos: controle, humilhação, isolamento, inversão de culpa, desqualificação da percepção, ameaças e exploração emocional.
A linguagem espiritual também pode esconder esses comportamentos.
O abuso pode ser chamado de prova kármica.
A dependência pode ser confundida com conexão de almas.
O ciúme pode receber o nome de proteção.
E a vítima pode acreditar que precisa perdoar mais, vibrar mais alto ou curar o parceiro para conseguir libertar-se.
Quando alguém chega a uma consulta relatando medo, controle ou perda da própria percepção, não devemos transformar imediatamente sua experiência em obsessão, ataque espiritual ou dívida de outra vida.
Antes de perguntar sobre relacionamento, precisamos observar os sinais, os ciclos, as numerologias que cercam a relação.
O trabalho espiritual pode acolher, fortalecer e proteger simbolicamente. Mas não substitui acompanhamento psicológico, orientação jurídica ou uma rede de proteção.
Às vezes, ajudar alguém não significa realizar um trabalho para trazer o parceiro de volta.
Significa ajudá-la a voltar para si.
Porque nenhuma ligação espiritual anula o consentimento.
E nenhuma alma precisa permanecer onde sua consciência está sendo destruída.
O BOS como registro da travessia
Meu BOS reúne os cantos da infância, os hiperfocos, os Bálcãs, Salem, Sobek, a Wicca, a bruxaria natural, a gnose, a consciência soberana, os símbolos, a ancestralidade, o corpo e as práticas espirituais.
Ele não foi escrito como verdade absoluta.
Nenhum livro, mestre, religião, entidade, oráculo ou tradição deve ocupar o lugar da consciência.
O BOS registra uma caminhada. Meus outros livros e os artigos publicados no Universos da Bru continuam essa pesquisa por linguagens diferentes.
Escrever também é uma forma de resistência.
Quando registramos nossa experiência, não permitimos que somente perseguidores, instituições ou observadores externos determinem seu significado.
A bruxaria moderna continua viva
A bruxaria moderna não é uma cópia intacta de um passado idealizado.
É um campo vivo, formado por permanências, rupturas, reconstruções e novas interpretações.
Ela sobreviveu porque não dependia apenas de templos e documentos oficiais.
- Sobreviveu em cantos.
- Em plantas.
- Em sonhos.
- Em encantamentos.
- Em gestos.
- Em famílias.
- Em práticas domésticas.
- Em pessoas que continuaram observando.
Praticar bruxaria com autonomia não significa acreditar em tudo.
Significa recuperar o direito de perceber, estudar, interpretar e perguntar.
Começamos com uma música que me alcançou antes que eu conhecesse sua tradução.
Passamos pelos Bálcãs, onde a magia sobreviveu por meio da oralidade, do costume e da adaptação.
Vimos que intérpretes do invisível já foram consultados por governantes e que José do Egito transformou um sonho em orientação para atravessar a escassez.
Atravessamos Salem como território indígena, projeto colonial, sociedade em guerra e espaço de perseguição.
Chegamos a Sobek por meio de um hiperfoco que se transformou em estudo sobre instinto, corpo, margem e soberania.
E retornamos à consciência: a primeira ferramenta da bruxa e aquilo que nenhum sistema deveria exigir que abandonemos.
Primeiro, a vibração. Depois, o estudo, o discernimento e o sentido.
Brunna Melo — Estratégia com alma, palavra com presença
Brunna Melo é estrategista de conteúdo, revisora, copywriter e guardiã de narrativas que curam. Atuou por uma década na educação pública, onde aprendeu, na prática, que toda comunicação começa com escuta. Sua trajetória une técnica e intuição, método e magia, estrutura e sensibilidade.
Formada em Relações Internacionais, mas também com formação técnica em Recursos Humanos e Secretariado, Brunna carrega ainda em seu percurso a pós-graduação em Diplomacia e Políticas Públicas e cursa a licenciatura em Psicopedagogia. Dos 16 aos 26 anos trabalhou na rede pública de Itapevi, onde desenvolveu um olhar atento às subjetividades, à inclusão e à palavra como ferramenta de transformação. Em 2019, realizou intercâmbio em Montreal, no Canadá, onde consolidou sua fluência em francês, inglês e espanhol, ampliando sua visão multicultural e espiritual.
Hoje, Brunna integra SEO técnico, copywriting consciente e comunicação simbólica para marcas e pessoas que desejam crescer com base, respeitando o tempo de quem lê e a verdade de quem escreve. Atua em projetos nacionais e internacionais com foco em posicionamento estratégico, revisão acadêmica, produção de conteúdo e construção de autoridade orgânica com profundidade e coerência.
Mas sua atuação vai além da técnica. Brunna é bruxa de alma antiga, com forte ligação à ancestralidade, aos ciclos e à linguagem como portal. Sua escrita é ritualística, sua presença é intuitiva e seu trabalho parte do princípio de que comunicar é também cuidar — é criar campos de confiança, abrir espaço para o sagrado e firmar digitalmente o que o corpo muitas vezes não sabe nomear.
Mãe, mulher neurodivergente, educadora e artista, Brunna transforma vivências em matéria-prima para narrativas com sentido. Seus textos não são apenas bonitos — são precisos, respeitosos, vivos. Acredita que conteúdo de verdade não serve só para engajar, mas para construir pontes, evocar arquétipos, gerar impacto real e deixar legado.
Atualmente, colabora com agências e marcas que valorizam conteúdo com presença, estratégia com alma e comunicação como campo de cura. E continua firmando um só compromisso: que toda palavra escrita esteja a serviço de algo maior.





















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