Narcisismo e antissocial: ciclos, dinâmicas e impactos na vida real

Quando falamos em transtornos de personalidade, o imaginário popular costuma se dividir entre dois extremos: de um lado, a figura sedutora e manipuladora do narcisista; de outro, o frio e calculista psicopata. No entanto, por trás desses rótulos existem estruturas complexas, que atravessam a vida de milhões de pessoas de forma direta ou indireta. Entender esses ciclos não é apenas um exercício de curiosidade psicológica: é uma necessidade real para quem já se viu enredado em relações abusivas, caóticas ou destrutivas.

O narcisismo patológico, por exemplo, não se confunde com a vaidade comum ou com o amor-próprio saudável. Ele se expressa em um ciclo repetitivo de conquista, desvalorização, exploração e descarte, sempre em busca de suprimento emocional para preencher um vazio que nunca cessa. Já o transtorno de personalidade antissocial, que abrange sociopatas e psicopatas, funciona de forma ainda mais predatória: ao invés de depender da validação, vive do poder, da manipulação e da ausência completa de empatia afetiva.

Entre um polo e outro, existe uma linha contínua — um espectro humano que vai do empata, capaz de sentir profundamente a dor alheia, ao psicopata, para quem o outro não passa de objeto de uso. Reconhecer essa escala ajuda a compreender como certos comportamentos surgem, se cristalizam e, em casos extremos, destroem vidas e comunidades.

Mais do que teorizar, este artigo propõe uma leitura prática e crítica: como funcionam os ciclos narcisistas, como se estruturam as dinâmicas antissociais, por que ambos tendem a escalar seus abusos e o que isso significa para quem convive com essas personalidades. Não se trata de rótulo apressado, mas de consciência: nomear padrões é o primeiro passo para se proteger deles.

Também é importante lembrar que o tema não está distante da espiritualidade ou da cultura. Figuras históricas e bíblicas já encarnaram arquétipos que podem ser lidos hoje como manifestações do espectro narcisista e antissocial, revelando que a luta entre ego e empatia, poder e compaixão, acompanha a humanidade desde os seus primórdios.

Nos próximos blocos, vamos percorrer esse caminho de forma organizada, explicando os ciclos, dinâmicas e impactos de cada estrutura — até chegarmos à escala humana: do empata ao psicopata.


O ciclo do narcisista: da sedução ao descarte

O narcisismo patológico não deve ser confundido com autoestima saudável ou amor-próprio equilibrado. Ele se estrutura como um ciclo repetitivo, quase viciante, que move o indivíduo em busca de algo que nunca se sustenta: o suprimento narcísico. Esse suprimento pode ser atenção, admiração, obediência ou até mesmo a energia emocional do outro em situações de conflito. O narcisista não vive sem esse combustível, e por isso constrói suas relações em torno dele.

A primeira etapa é a sedução ou idealização. Nesse momento, a vítima é colocada em um pedestal. O narcisista exibe carisma, promessas, gestos grandiosos e até uma aparência de devoção incomum. Esse encantamento inicial não nasce de afeto genuíno, mas de excitação pelo poder de conquistar. É como se cada nova relação fosse um palco para encenar perfeição — até que o brilho se esgote.

A seguir vem a desvalorização. A mesma pessoa que era exaltada passa a ser criticada, comparada, diminuída. Essa mudança repentina confunde a vítima, que tenta recuperar a fase da idealização, sem perceber que a oscilação é parte do ciclo. O narcisista sente tédio com a estabilidade e, para recuperar a sensação de poder, cria tensão. É nesse momento que surgem os primeiros sinais de gaslighting, quando a realidade do outro é distorcida até que ele duvide de si mesmo.

Em seguida, o ciclo atinge o estágio do caos e exploração. O narcisista pode recorrer a traições, manipulações financeiras, humilhações sutis ou jogos de triangulação. O prazer está em ver o outro exausto, fragilizado e, ao mesmo tempo, preso ao vínculo. A estabilidade é substituída pela montanha-russa emocional, que funciona como combustível.

Quando a vítima perde a utilidade ou já não reage, ocorre o descarte. Frieza, indiferença ou sumiço marcam essa fase. Para o narcisista, não há ruptura definitiva: existe apenas a pausa até a próxima oportunidade. Por isso, muitas vezes, depois do descarte, surge a etapa do reabastecimento (hoovering), quando ele retorna com promessas de mudança ou apelos emocionais.

Esse ciclo não nasce do amor, mas do vazio. E é justamente por isso que nunca termina. Ele se repete porque o narcisista não encontra em si o que exige dos outros. Reconhecer esse padrão é o primeiro passo para não ser enredado pela lógica de sedução e destruição que o sustenta.


Dinâmicas e motivações do narcisista

Compreender o narcisismo patológico exige olhar para além do ciclo aparente. Não basta apenas identificar as fases de sedução, desvalorização, exploração e descarte; é necessário investigar o que move cada uma delas. O narcisista vive preso a uma engrenagem interna em que a necessidade de suprimento externo substitui qualquer possibilidade de vínculo autêntico.

Durante a conquista, o que se manifesta não é amor ou interesse genuíno, mas uma euforia pelo poder de atrair e encantar. O narcisista sente-se vivo quando percebe o brilho nos olhos do outro, pois esse reflexo alimenta sua grandiosidade. Já na desvalorização, surge o tédio: a vítima, que antes era fonte de excitação, passa a representar a realidade estável, e a estabilidade expõe o vazio que o narcisista tanto teme. Para escapar desse confronto interno, ele cria tensão, crítica e desgaste.

O caos surge como remédio para o vazio. O drama, as discussões, as triangulações e até a dor alheia funcionam como fonte de energia. Quanto mais a vítima se desestabiliza, mais o narcisista recupera a sensação de centralidade. Esse jogo perverso não é apenas manipulação; é um mecanismo de sobrevivência emocional.

Outro ponto central são as chamadas fontes primárias e secundárias. A fonte primária costuma ser a parceira ou parceiro fixo, a pessoa que carrega o vínculo mais profundo e estável. Ela representa posse, território e segurança simbólica. Mesmo quando existem amantes ou conexões paralelas — as fontes secundárias —, dificilmente o narcisista abre mão da primária. Essa hierarquia mostra como as relações são vistas não como vínculos, mas como reservas de suprimento.

Com o tempo, os abusos tendem a escalar. O que antes era um comentário sarcástico se torna humilhação aberta; o que era uma mentira leve evolui para traições complexas. Essa escalada ocorre porque o narcisista, como qualquer dependente, precisa de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito.

No fim, as motivações são sempre circulares: fugir do vazio, reafirmar controle e alimentar o falso self. Por mais que pareça poderoso, o narcisista é refém de sua própria fome, incapaz de sustentar paz verdadeira. Quem compreende essa lógica passa a enxergar que não se trata de falha da vítima, mas de um padrão intrínseco à estrutura da personalidade.


O ciclo do antissocial: psicopatia e sociopatia

Enquanto o narcisista precisa constantemente de validação e reage ao vazio com manipulação e drama, o indivíduo com transtorno de personalidade antissocial opera em outro nível. Seu funcionamento é marcado por frieza, ausência de empatia afetiva e disposição constante para explorar o outro como objeto. Dentro desse espectro estão a sociopatia e a psicopatia, que se distinguem sobretudo pelo grau de cálculo ou impulsividade.

O ciclo do antissocial segue etapas próprias. A primeira é a sedução estratégica: diferente do narcisista, que busca brilho e espetáculo, aqui a aproximação é pensada como um jogo de xadrez. O antissocial observa vulnerabilidades, entende necessidades e oferece exatamente o que a vítima deseja ouvir ou ter. É um processo menos emocional e mais instrumental.

Na fase de estabelecimento de domínio, o objetivo é testar limites e consolidar poder. Pequenas manipulações, chantagens sutis ou indução à dependência são aplicadas para que a vítima se acostume a girar em torno do antissocial. Trata-se de fixar terreno seguro antes de partir para a exploração direta.

O momento central é a exploração. Nesse estágio, o antissocial extrai recursos de forma aberta: pode ser dinheiro, favores, sexo, influência social ou simplesmente prazer em degradar o outro. Para ele, não há dilema ético. O que importa é a utilidade.

Quando percebe que a vítima já não oferece mais nada, chega o descarte cirúrgico. Diferente do narcisista, que pode voltar por desespero de suprimento, o antissocial não sente falta afetiva. O afastamento é frio, direto e sem drama. A relação se encerra porque cumpriu sua função.

Existe ainda o reabastecimento seletivo. Ele só acontece se a vítima mantiver algum recurso ainda não explorado. Nesse caso, o retorno é pragmático, sem emoção, apenas pela utilidade.

Entre psicopatas e sociopatas, a diferença é principalmente de estilo:

  • O psicopata é frio, calculista e capaz de manter fachada social impecável.
  • O sociopata é impulsivo, caótico e propenso a explosões emocionais.

Em comum, ambos compartilham a lógica do uso e da exploração. Não há vínculo real, apenas cálculo ou descarga de impulsos. Reconhecer esse ciclo é crucial para compreender que, em níveis diferentes, o antissocial não busca relação: busca apenas território, controle e ganho.


Dinâmicas, escalada e cronicidade no antissocial

O funcionamento antissocial não se limita a ciclos isolados. Ele se aprofunda com o tempo, pois a lógica da exploração não conhece saciedade. Enquanto o narcisista se perde em buscas constantes por validação, o antissocial transforma o poder e o controle em forma de existência. Esse padrão não só se repete: ele tende a se intensificar, a menos que seja contido por fatores externos como punições legais ou pressões sociais.

Um dos pontos mais claros é a escalada dos abusos. O que começa como manipulação leve ou pequenos testes de limite logo evolui para golpes mais graves, traições profundas, destruição de reputação ou violência aberta. Isso ocorre porque, assim como em um vício, o estímulo inicial deixa de gerar a mesma excitação. Para recuperar a sensação de domínio, é preciso ir além. A tolerância aumenta, e o caos também.

Essa escalada está ligada ao caráter crônico do transtorno. Ao contrário de condições que oscilam em crises e remissões, a personalidade antissocial não desaparece com o tempo. Trata-se de uma estrutura permanente: o indivíduo não “cresce” ou amadurece fora dessa lógica. Em muitos casos, o envelhecimento intensifica a perversidade, já que os recursos externos — beleza, influência, status — diminuem, e o recurso ao controle e à manipulação se torna ainda mais necessário.

Outro aspecto é a forma como o antissocial administra suas vítimas. Assim como no narcisismo, existe a distinção entre fontes primárias e secundárias. A primária é aquela que fornece vínculo estável, muitas vezes o parceiro fixo ou a mãe/pai dos filhos. Mesmo em meio a outras relações, essa figura dificilmente é abandonada, pois representa segurança e território. Já as fontes secundárias funcionam como reserva: amantes, cúmplices, amizades úteis. O antissocial pode multiplicá-las, mas não abre mão da principal.

As motivações centrais também revelam por que o ciclo nunca cessa. Não se trata de amor, nem de desejo de afeto. O que move o antissocial é o poder absoluto, a extração de recursos, a evasão do próprio vazio e, em casos mais graves, a perversidade em ver o outro exausto. Para ele, a vida é um tabuleiro, e as pessoas são peças.

Assim, a cronicidade do padrão mostra que não há esperança de mudança espontânea. Só a consciência das vítimas e o estabelecimento de limites firmes podem interromper o ciclo. Entender essa lógica é vital para não se perder dentro dela.


A escala humana: do empata ao psicopata

A linha que separa empatia de perversidade é mais fina do que imaginamos. Quando falamos em narcisismo e antissocialidade, a tendência é pensar em extremos: de um lado, os “maus” que manipulam e destroem; de outro, os “bons” que sofrem nas mãos deles. Mas a realidade humana é mais complexa, porque todos nós existimos dentro de um espectro. É justamente esse espectro que mostra como pequenas escolhas, visões de mundo e modos de se relacionar podem nos aproximar da consciência ou da sombra.

De um lado, há quem sinta demais. Pessoas que carregam forte capacidade de empatia, que sofrem com a dor alheia como se fosse sua, e muitas vezes se esgotam tentando salvar o mundo. Algumas se tornam “empatas” no sentido popular: absorvem energias, vivem intensamente a emoção do outro e, se não cuidarem dos próprios limites, podem até se perder nesse processo. No extremo disso está o altruísmo radical, quando alguém abdica de si mesmo em favor dos outros — um traço admirável, mas também perigoso, porque a anulação total também distorce a humanidade.

Do outro lado, há quem sinta de menos. Pessoas que enxergam o outro como recurso, palco ou objeto. No início, isso pode se expressar em formas sutis: a vaidade que busca reconhecimento, a competição exagerada, a manipulação ocasional. Mas, se esse modo de existir se cristaliza, ele pode avançar para níveis cada vez mais sombrios, do narcisismo grandioso até a psicopatia predatória. É uma escada que vai descendo aos poucos, e quanto mais alguém mergulha nela, mais difícil se torna voltar.

No meio desse espectro está o que podemos chamar de equilíbrio: o amor-próprio saudável. A capacidade de reconhecer o próprio valor sem precisar esmagar o outro; de buscar reconhecimento sem transformar isso em necessidade vital; de cuidar de si e, ao mesmo tempo, cuidar de quem está ao redor. É esse ponto que sustenta a humanidade.

Olhar para essa escala nos lembra que não há apenas dois lados fixos. Existe uma linha tênue que corta a humanidade e mostra que cada pessoa, em suas escolhas, pode se aproximar mais da empatia ou da perversidade. Reconhecer essa linha não serve para apontar dedos, mas para despertar responsabilidade: qual lado estamos alimentando no nosso dia a dia?


A régua da condição humana

Brunna Aarão de Melo, Brunna Melo, SEO, AEO, Marketing Digital, Espiritualidade, Propósito, Amor Próprio, Narcisismo, Palavra Cantada.

A linha da escala humana é uma forma de visualizar como diferentes funcionamentos psicológicos e relacionais se distribuem em um espectro contínuo. Em vez de separar as pessoas em categorias fixas de “boas” ou “más”, ela mostra gradações que vão da fusão completa com o outro até a exploração predatória. No meio desse percurso está o equilíbrio: a capacidade de integrar autoestima e empatia de maneira saudável.

No centro, a referência é a empatia saudável, quando alguém consegue sentir o outro sem se anular, reconhecendo o impacto das próprias ações e preservando limites, caracterizado por autoestima equilibrada e amor-próprio. É o ponto de integração: reconhecer-se sem se perder nos outros e valorizar o outro sem necessidade de exploração.

Avançando à esquerda, encontramos o alto empata, que vivencia de forma intensa as emoções alheias, com grande potencial de cuidado, mas também de sobrecarga emocional. Após ele, aparece o empata sensitivo ou mediúnico, cuja sensibilidade extrapola o campo das interações visíveis: percebe ambientes, energias e até dores físicas como se fossem suas. Esse nível pode se traduzir em dons refinados de percepção, mas também em vulnerabilidade ao esgotamento. No extremo, está o altruísmo radical ou martírio, quando a pessoa abdica da própria vida, saúde ou segurança em nome do outro. Embora simbolize dedicação extrema, também evidencia o risco da dissolução completa da identidade.

Na direita, lado do narcisismo e da antissocialidade, o movimento é inverso. Ele começa com traços narcisistas ou antissociais, como vaidade excessiva ou pequenas manipulações, ainda reversíveis. Em seguida, surge o narcisismo vulnerável ou sociopatia leve, marcado por oscilações entre vitimismo e grandiosidade. O passo seguinte é o narcisismo grandioso ou sociopatia moderada, com arrogância, ausência de empatia e relações instáveis. Mais adiante, o narcisismo maligno ou psicopatia funcional mostra manipulação refinada e crueldade disfarçada por uma fachada social. No limite, encontra-se a psicopatia grave, caracterizada por comportamento predatório, violência e ausência total de remorso.

Essa régua evidencia que os extremos representam riscos — tanto o da anulação completa de si quanto o da destruição do outro. O ponto de saúde está no meio, onde coexistem empatia, autoestima e limites claros.


Equilíbrio e limite: a régua humana como lição de consciência

Falar sobre narcisismo e antissocialidade é mais do que explorar conceitos clínicos ou comportamentos curiosos: é olhar para padrões que atravessam vidas, famílias e sociedades inteiras. Esses transtornos não são apenas diagnósticos em livros; são formas de funcionamento que marcam relações, destroem vínculos e, muitas vezes, deixam cicatrizes invisíveis.

O ciclo narcisista, com suas fases de sedução, desvalorização, exploração e descarte, mostra como a necessidade de validação pode se tornar um labirinto sem saída. A cada volta, a vítima perde energia e o narcisista reforça sua fome, sem nunca encontrar satisfação real. Já o ciclo antissocial evidencia uma lógica diferente: não se trata de drama ou carência, mas de frieza e cálculo. O outro é visto como recurso, peça de jogo, território a ser explorado. Quando não há mais utilidade, o vínculo simplesmente se encerra.

Reconhecer esses padrões não significa rotular pessoas a esmo. O objetivo não é usar a psicologia como arma, mas como ferramenta de consciência. Quando nomeamos ciclos, conseguimos enxergar que não se trata de falha da vítima, mas de uma estrutura repetitiva que só se interrompe com limites claros, consciência crítica e, muitas vezes, apoio externo. A transformação, nesse caso, não está na expectativa de mudança do outro, mas na decisão de quem reconhece a dinâmica e escolhe se afastar dela.

A régua humana, que vai do empata ao psicopata, nos lembra que esses funcionamentos não existem em caixas separadas. Todos transitamos em algum ponto da escala. O desafio é não permitir que traços momentâneos se tornem cristalizações destrutivas, e, ao mesmo tempo, não cair na anulação completa de si em nome dos outros. O equilíbrio está em integrar empatia e autoestima, amor e consciência, presença e limite.

Ao olhar para narcisistas, sociopatas e psicopatas, não estamos diante de monstros míticos, mas de expressões humanas extremas. Essa consciência nos ajuda a abandonar ilusões, proteger nossa energia e buscar relações que nos alimentem de verdade. O aprendizado é duro, mas libertador: quanto mais compreendemos os ciclos, mais preparados estamos para não repeti-los.

Portanto, compreender narcisismo e antissocialidade é compreender também a condição humana. Somos todos atravessados por ego e empatia, luz e sombra. A pergunta que permanece é: qual lado da linha tênue estamos escolhendo nutrir a cada dia?

Brunna Aarão de Melo, Brunna Melo, SEO, AEO, Marketing Digital, Espiritualidade, Propósito, Amor Próprio, Narcisismo, Palavra Cantada.

Ecos do espectro na Bíblia: Paulo, Jezabel, Nabucodonosor, Caim e Jesus

A Bíblia, além de texto espiritual, também pode ser lida como um repositório de arquétipos humanos. Suas narrativas descrevem figuras que, sob o olhar contemporâneo, refletem traços que hoje associamos ao espectro do narcisismo e da antissocialidade. Não se trata de diagnosticar personagens antigos, mas de interpretar comportamentos que ecoam nas categorias modernas de grandiosidade, manipulação, violência ou compaixão radical.

Um dos exemplos mais discutidos é o do apóstolo Paulo. Antes de sua conversão, como Saulo de Tarso, ele perseguia cristãos com fervor, acreditando agir em nome da verdade. Sua postura autoritária, seu zelo inflexível e sua centralidade no discurso podem ser lidos como traços de grandiosidade. Após a conversão, ainda se percebe em suas cartas uma insistência em destacar sua própria legitimidade, o que leva alguns estudiosos a interpretá-lo como alguém com traços narcisistas — embora ressignificados dentro de sua missão.

No livro de Reis, encontramos Jezabel, rainha marcada por manipulação, poder e intriga. Seu nome se tornou sinônimo de sedução e perversidade, pois usava influência para subjugar e destruir opositores. Sua atuação remete ao que chamamos hoje de narcisismo maligno, em que a grandiosidade se alia à crueldade.

Outro arquétipo é Nabucodonosor, o rei da Babilônia que construiu monumentos para si mesmo e exigiu adoração de seus súditos. Sua grandiosidade e culto ao próprio ego refletem o narcisismo em escala política, onde o indivíduo confunde poder pessoal com divindade. Seu castigo bíblico, vivendo como animal no campo até reconhecer a soberania divina, simboliza a queda inevitável da arrogância desmedida.

Por fim, há Caim, o primeiro assassino da narrativa bíblica. Movido por inveja do favor que Deus deu a Abel, ele cedeu ao impulso da violência. Esse episódio revela um dos primeiros retratos da lógica antissocial: o outro não como irmão, mas como obstáculo a ser eliminado.

Em contraste com esses arquétipos da sombra, encontramos em Jesus o extremo oposto: a empatia radical. Sua capacidade de se colocar no lugar dos marginalizados, de estender compaixão a quem era rejeitado e de enfrentar o poder estabelecido em nome do amor o levou a se tornar mártir. Dentro da escala simbólica que vai do empata ao psicopata, Jesus representa o polo da entrega total — aquele que sente a dor da humanidade a ponto de aceitá-la sobre si mesmo. Ainda que essa posição revele grandeza espiritual, também expõe a fragilidade de quem vive a compaixão sem limites em um mundo permeado pela dureza.

Essas figuras bíblicas, em polos tão distintos, mostram que a luta entre ego e empatia, poder e compaixão, não é nova: é parte da história humana. A Bíblia, ao narrar suas trajetórias, nos lembra que tanto a sombra quanto a luz habitam em nós — e que cada escolha reforça um dos lados dessa linha tênue.


Brunna Melo — Estratégia com alma, palavra com presença

Brunna Melo é estrategista de conteúdo, revisora, copywriter e guardiã de narrativas que curam. Atuou por uma década na educação pública, onde aprendeu, na prática, que toda comunicação começa com escuta. Sua trajetória une técnica e intuição, método e magia, estrutura e sensibilidade.

Formada em Relações Internacionais, mas também com formação técnica em Recursos Humanos e Secretariado, Brunna carrega ainda em seu percurso a pós-graduação em Diplomacia e Políticas Públicas e cursa a licenciatura em Psicopedagogia. Dos 16 aos 26 anos trabalhou na rede pública de Itapevi, onde desenvolveu um olhar atento às subjetividades, à inclusão e à palavra como ferramenta de transformação. Em 2019, realizou intercâmbio em Montreal, no Canadá, onde consolidou sua fluência em francês, inglês e espanhol, ampliando sua visão multicultural e espiritual.

Hoje, Brunna integra SEO técnico, copywriting consciente e comunicação simbólica para marcas e pessoas que desejam crescer com base, respeitando o tempo de quem lê e a verdade de quem escreve. Atua em projetos nacionais e internacionais com foco em posicionamento estratégico, revisão acadêmica, produção de conteúdo e construção de autoridade orgânica com profundidade e coerência.

Mas sua atuação vai além da técnica. Brunna é bruxa de alma antiga, com forte ligação à ancestralidade, aos ciclos e à linguagem como portal. Sua escrita é ritualística, sua presença é intuitiva e seu trabalho parte do princípio de que comunicar é também cuidar — é criar campos de confiança, abrir espaço para o sagrado e firmar digitalmente o que o corpo muitas vezes não sabe nomear.

Mãe, mulher neurodivergente, educadora e artista, Brunna transforma vivências em matéria-prima para narrativas com sentido. Seus textos não são apenas bonitos — são precisos, respeitosos, vivos. Acredita que conteúdo de verdade não serve só para engajar, mas para construir pontes, evocar arquétipos, gerar impacto real e deixar legado.

Atualmente, colabora com agências e marcas que valorizam conteúdo com presença, estratégia com alma e comunicação como campo de cura. E continua firmando um só compromisso: que toda palavra escrita esteja a serviço de algo maior.


Descubra mais sobre Universos da Bru

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Uma resposta para “Narcisismo e antissocial: ciclos, dinâmicas e impactos na vida real”.

  1. Avatar de Psicopata no Mercado de Trabalho: se você não conhece nenhum, então provavelmente é você – Universos da Bru

    […] esse tema te interessou, explore também os outros artigos já publicados no Universos da Bru sobre narcisistas, sociopatas, psicopatas e a escala da condição humana. Cada texto aprofunda ângulos diferentes do mesmo espectro — e juntos, ajudam a compreender […]

    Curtir

Deixe um comentário

Sou Brunna

Bem-vinda(o) ao meu espaço, onde compartilho reflexões sobre escrita, estratégia de conteúdo e a potência das narrativas que transformam.

Aqui, divido minha trajetória como estrategista, redatora e copywriter, mas também como mãe, educadora e mulher em constante processo de autoconhecimento.

Acredito que escrever é mais do que comunicar: é criar presença, gerar impacto e deixar legado.

Te convido a acompanhar meus conteúdos e, quem sabe, encontrar aqui inspiração para construir a sua própria voz com autenticidade e propósito.

Contact me | Fale comigo

Estratégia de Conteúdo

Revisão TCC e ABNT

Agendamento Tarot

Let’s connect