FAUN: música que atravessa mundos

Entre tantas formas de arte que nos atravessam, poucas têm o poder da música ancestral. E entre tantas bandas que exploram esse território, Faun é uma das poucas que realmente o habitam. Eles não apenas tocam melodias antigas — eles as despertam, com instrumentos, idiomas e harmonias que parecem ter sido resgatados de vidas passadas. É difícil explicar a quem nunca os ouviu pela primeira vez, mas quem já experimentou sabe: Faun não se ouve, se vive.

Criada na Alemanha, a banda tornou-se referência global em pagan folk, com apresentações que misturam rituais, poesia e uma fusão instrumental inconfundível. Ouvir Faun é ser convidado a cruzar portais, a sair do tempo linear e adentrar dimensões onde a natureza, o feminino, o sagrado e o mítico ainda governam. Seus shows são verdadeiros ritos de passagem — e cada canção, um espelho daquilo que a alma já reconhece antes mesmo que a mente compreenda.

É por isso que, mesmo anos depois, certos encontros com a banda permanecem vivos na memória. Estive presente em 2018, quando tocaram no Brasil. Mas neste ano, em 2025, por estar fora das redes sociais, não soube que voltariam em julho. A ausência me atravessou. Não como culpa ou arrependimento, mas como lembrete: há experiências que queremos repetir, porque foram tão verdadeiras que nos lembraram de quem somos.

Este artigo é uma homenagem a esse reencontro que, mesmo não vivido presencialmente, continua vivo em mim — e, talvez, em tantos outros que sentem o chamado das raízes e da música como linguagem espiritual. Vamos mergulhar juntos na história, nos símbolos e na sonoridade de Faun. E ao final, compartilho algo especial: uma transcrição adaptada para flauta doce da música Federkleid, para que você possa vivenciar, com as próprias mãos, um pouco dessa vibração.

Porque há músicas que não apenas ouvimos, mas que também podemos aprender a tocar, como quem acende uma chama antiga dentro do peito.


A trajetória de Faun: quando a música ecoa mitos, florestas e espíritos antigos

Faun nasceu no fim da década de 1990, na Alemanha, com a proposta de resgatar músicas ancestrais e tradições esquecidas. Mas ao contrário de tantos projetos musicais que apenas se inspiram na estética medieval, o grupo mergulha profundamente na reconstrução de uma experiência sonora que atravessa tempo, idioma e cultura. Seus integrantes estudam manuscritos antigos, utilizam instrumentos históricos e se conectam com a espiritualidade dos povos nórdicos, germânicos, celtas e mediterrâneos.

O nome do grupo já é uma pista do que carregam: Faun era a divindade romana dos bosques, das florestas e dos instintos — uma figura híbrida entre homem e animal, símbolo da fertilidade, da liberdade selvagem e da música. Não é coincidência que, ao ouvi-los, muitos descrevam a sensação de estar em uma floresta. Há algo nos arranjos que invoca os elementos: vento, terra, fogo e água. E há algo nas letras que remete à oralidade dos povos antigos, quando a música ainda era magia e ritual.

Desde o primeiro álbum, Zaubersprüche (2002), Faun se posicionou como uma banda com identidade própria. Não se tratava de recriar o passado, mas de torná-lo presente. Ao longo dos anos, lançaram obras como Eden, Von den Elben e Midgard, cada uma com um tema central que guia a narrativa sonora do álbum. Entre as inspirações, estão as runas nórdicas, os contos dos irmãos Grimm, os textos das Eddas, os hinos do Carmina Burana e as lendas de Avalon.

A formação da banda foi se transformando com o tempo, mas sua essência permaneceu: Oliver Pade (também conhecido como SaTyr), Laura Fella, Stephan Groth, Rüdiger Maul e Niel Mitra são alguns dos nomes que compõem a fase atual do grupo. Cada um traz uma especialidade — desde percussões orientais até harpas celtas, do canto gutural ao uso de sons eletrônicos com elegância.

Faun é, também, um exemplo de como a arte pode ser um canal de reconexão espiritual. Suas letras não falam de amor romântico ou dramas cotidianos. Elas invocam deusas, animais sagrados, florestas encantadas, luas cheias, rituais e metamorfoses. Essa escolha os posiciona como mais do que músicos: são guardiões de uma herança imaterial. Ao ouvi-los, não nos tornamos apenas público — nos tornamos parte do rito.


Faun no Brasil: um ritual pagão em pleno palco

A presença de Faun no Brasil é sempre um acontecimento raro — e profundamente transformador. Em 2018, quando se apresentaram por aqui, o que se viu não foi apenas um show, mas uma experiência sensorial e espiritual que muitos jamais esqueceram. A banda alemã conseguiu recriar, diante de um público sedento por autenticidade, a atmosfera de um ritual ancestral, com harpas, flautas, vielas, tamborins, gaitas, salterios e instrumentos quase extintos que, uma vez ecoados ao vivo, pareciam acordar memórias profundas no corpo e na alma.

O evento foi cuidadosamente orquestrado. A abertura ficou por conta da banda brasileira Terra Celta, do Paraná, que trouxe ao palco uma fusão bem-humorada e tecnicamente impecável entre folk, elementos teatrais e música tradicional europeia. O público, já aquecido pela energia contagiante do grupo paranaense, mergulhou com entrega total quando Faun subiu ao palco. O contraste entre as propostas — uma mais irreverente, outra mais ritualística — serviu como perfeito equilíbrio entre celebração e reverência.

Naquela noite, tudo parecia fazer sentido. O cenário remetia a bosques e antigos castelos. As roupas dos integrantes, longe de serem apenas figurino, traduziam um modo de viver e pensar que se estende para além da estética. E os idiomas que preenchiam o espaço — gaélico, alemão arcaico, islandês, latim — criavam uma ambiência quase litúrgica. Era como se cada canção abrisse um portal para um tempo onde a música era meio de conexão com o sagrado.

Diferente de tantas bandas que usam a temática folk como adorno, Faun mergulha na essência. Não se trata apenas de cantar sobre a natureza — eles invocam a natureza. Não é só sobre reproduzir melodias antigas — é sobre permitir que elas vivam novamente, com respeito e profundidade. A presença das vozes líricas femininas, em especial, hipnotizou o público. Houve momentos de puro encantamento coletivo, daqueles em que ninguém precisa falar — todos apenas sentem.

Estive presente naquele show de 2018, e foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Por isso, quando soube tardiamente que haviam retornado ao Brasil em julho de 2025, senti um misto de saudade e reverência. A ausência não apagou a conexão — apenas reforçou o quanto a música, quando é verdadeira, nos habita para sempre.


A sonoridade de Faun: instrumentos, idiomas e a alquimia sonora do pagan folk

Uma das maiores forças de Faun está na sua sonoridade inconfundível. O grupo não se limita a tocar — ele conjura. Em cada música, há uma combinação precisa entre vocais etéreos, percussões tribais, cordas ancestrais e instrumentos de sopro que atravessam séculos de história. É uma alquimia sonora que não apenas agrada ao ouvido, mas desperta memórias arquetípicas, como se algo em nós já tivesse ouvido aquilo antes — talvez em outra vida, talvez num sonho.

Entre os instrumentos mais marcantes usados pela banda estão a nyckelharpa (de origem sueca), a citara, a flauta de osso, o hurdy-gurdy (viola de roda), o tambor frame drum, o salterio, o bouzouki irlandês e a harpa celta. São instrumentos que raramente se vê nos palcos contemporâneos, ainda mais reunidos com tamanha maestria. Ao lado deles, elementos eletrônicos sutis — sempre discretos e bem integrados — criam paisagens sonoras envolventes que não rompem com a tradição, mas a expandem para o tempo presente.

Os vocais, por sua vez, são uma experiência à parte. Faun alterna e sobrepõe vozes femininas de timbre cristalino com vocais masculinos mais graves, criando harmonias que lembram cantos litúrgicos ou lamentos pagãos. As letras percorrem idiomas esquecidos, como o alto alemão médio, o islandês antigo, o francês arcaico, o latim e o gaélico, entre outros. Essa escolha não é estética: é uma decisão política e espiritual, que resgata línguas invisibilizadas pela modernidade e honra culturas que resistem no campo da memória.

Ao longo da discografia, a banda equilibra músicas de celebração, como Tanz mit mir e Federkleid, com cantos contemplativos e devocionais, como Luna, Hymn to Pan e Tinta. Esta última, cantada em espanhol, é uma jóia de simplicidade e emoção. Com melodia doce e letra breve, expressa uma verdade que só a arte consegue tocar: “Si la mar fuera de tinta / y el cielo fuera papel / no se podría escribir / lo mucho que es mi querer.” Não há palavra desperdiçada — tudo ali é verdade vibrando em som.

É por isso que ouvir Faun não é apenas consumir música. É se lembrar, se conectar, se emocionar com algo maior do que o tempo. É sentir que o invisível pode ser escutado.


Federkleid: a dança das penas, o símbolo da liberdade

Entre todas as músicas de Faun, Federkleid talvez seja a mais conhecida — e com razão. Lançada em 2016 no álbum Midgard, ela se tornou um hino moderno do pagan folk, conquistando tanto fãs antigos quanto novos ouvintes, muitos dos quais foram apresentados à banda justamente por esse clipe. A imagem de Laura Fella correndo por uma floresta, coberta de penas e envolta por dançarinos mascarados, é difícil de esquecer. Mas o impacto de Federkleid vai muito além do visual: ele reside na mensagem simbólica e na força espiritual que a música carrega.

Federkleid significa literalmente “vestido de penas” em alemão. E o título não é apenas uma metáfora. Ele representa a capacidade de libertar-se das amarras da racionalidade excessiva, dos ciclos de opressão invisíveis, das prisões que criamos para agradar ou pertencer. A letra, cantada com leveza mas carregada de ancestralidade, fala de transformação — não uma mudança superficial, mas uma metamorfose interna, que nos chama de volta à nossa essência selvagem, intuitiva, livre.

O tema da ave como símbolo de renascimento, conexão com o céu e leveza espiritual é antigo, presente em culturas indígenas, celtas, nórdicas e até africanas. Em Federkleid, esse arquétipo ganha forma musical. É como se cada nota retirasse um peso de nossas costas, lembrando que ainda é possível voar — mesmo que por dentro.

A canção também traz uma dança marcante, cuja coreografia já foi reproduzida por centenas de fãs em eventos de cultura alternativa, feiras medievais e encontros pagãos ao redor do mundo. Não por acaso: a dança em círculos, com movimentos fluidos e braços erguidos, parece ativar uma memória corporal coletiva. É mais do que um gesto artístico. É um rito.

Assistir à execução de Federkleid ao vivo é outro nível de experiência. A vibração do público, o tambor ecoando como coração da Terra, a flauta conduzindo como um pássaro-guia e as vozes invocando os ventos — tudo cria uma atmosfera que não se esquece. É libertador. E, para quem já toca instrumentos, especialmente flauta doce, é também um convite à incorporação do sagrado pelo som.

No próximo bloco, vou compartilhar como tocar Federkleid na flauta doce — não como simples partitura, mas como ritual pessoal. Porque, como diz a própria canção, o chamado da natureza não se explica: se sente.


Como tocar Federkleid na flauta doce: notas, respiração e intenção espiritual

Tocar Federkleid na flauta doce é mais do que executar uma melodia bonita — é permitir que o corpo canalize um chamado ancestral. A música, que já carrega em si uma energia de transmutação, ganha outra dimensão quando é vivida através do sopro, da intenção e da presença no ato de tocar. Seja em momentos de estudo, de introspecção ou de partilhas com outras pessoas, essa melodia tem o poder de abrir portais interiores.

A versão para flauta doce soprano que você possui segue a tonalidade original da música, com algumas adaptações que respeitam a tessitura do instrumento. A música está escrita em Sol maior, e a flauta doce responde lindamente a esse tom, com sonoridade clara e ressonante. A melodia alterna entre frases ascendentes que evocam leveza e outras mais estáveis que ancoram — como uma dança entre ar e terra.

As notas principais da introdução são:
G – A – B – A – G – A – B – D – B – A – G
E esse motivo se repete com pequenas variações, criando uma atmosfera hipnótica. Uma das características mais encantadoras dessa música é o uso de intervalos curtos que facilitam a fluidez. Para quem já tem certa prática com a flauta doce, Federkleid se torna prazerosa de tocar justamente por essa construção suave e intuitiva.

A articulação pode ser feita com sílabas como “tu” ou “du”, dependendo da leveza desejada. Vale lembrar que mais importante do que a técnica é a respiração consciente. Entre cada frase, há pausas naturais que pedem para serem preenchidas com intenção, não com pressa. É nessa escuta entre as notas que a espiritualidade do som se manifesta. Deixe que o ar se acomode — e que a música respire junto com você.

Para uma execução mais ritualística, você pode acender uma vela ou um incenso, visualizar-se com “penas nos ombros” ou simplesmente tocar com os pés descalços, conectada à Terra. A beleza da flauta doce está justamente nisso: no sopro que se transforma em símbolo, no som que se torna caminho.


Quando a música veste penas e a alma lembra

Ver Faun ao vivo, ouvir seus instrumentos extintos ressuscitarem no palco e sentir a vibração de vozes que parecem atravessar os véus do tempo não é só uma experiência musical — é espiritual. É como se cada acorde, cada sopro, cada percussão reativasse algo que estava adormecido dentro de nós. Em especial com músicas como Federkleid, o corpo se reconhece no rito, e a alma se lembra de que nasceu livre.

As penas que aparecem no figurino da banda, nos videoclipes e nas letras não são apenas adereços. Elas carregam o mesmo arquétipo presente em tantos símbolos sagrados pelo mundo: leveza, conexão com o céu, escuta sensível, liberdade do espírito. Assim como no filtro dos sonhos, onde as penas representam o canal por onde os bons sonhos descem suavemente até quem dorme — na música de Faun, elas são o que permite que o som toque o coração sem ferir, e que a ancestralidade voe até a gente.

Por isso, se essas imagens ressoaram com você, recomendo a leitura complementar do artigo que escrevi sobre o filtro dos sonhos e outros objetos de origem indígena — não como curiosidades estéticas, mas como instrumentos de proteção, sabedoria e reconexão espiritual.
👉 Filtro dos Sonhos: o amuleto indígena de sabedoria e proteção

A música, assim como o sonho, atravessa portais. E quando os dois se encontram, criam caminhos de cura. Que você continue trilhando esses caminhos com consciência, beleza e escuta.


Brunna Melo — Estratégia com alma, palavra com presença

Brunna Melo é estrategista de conteúdo, revisora, copywriter e guardiã de narrativas que curam. Atuou por uma década na educação pública, onde aprendeu, na prática, que toda comunicação começa com escuta. Sua trajetória une técnica e intuição, método e magia, estrutura e sensibilidade.

Formada em Relações Internacionais, mas também com formação técnica em Recursos Humanos e Secretariado, Brunna carrega ainda em seu percurso a pós-graduação em Diplomacia e Políticas Públicas e cursa a licenciatura em Psicopedagogia. Dos 16 aos 26 anos trabalhou na rede pública de Itapevi, onde desenvolveu um olhar atento às subjetividades, à inclusão e à palavra como ferramenta de transformação. Em 2019, realizou intercâmbio em Montreal, no Canadá, onde consolidou sua fluência em francês, inglês e espanhol, ampliando sua visão multicultural e espiritual.

Hoje, Brunna integra SEO técnico, copywriting consciente e comunicação simbólica para marcas e pessoas que desejam crescer com base, respeitando o tempo de quem lê e a verdade de quem escreve. Atua em projetos nacionais e internacionais com foco em posicionamento estratégico, revisão acadêmica, produção de conteúdo e construção de autoridade orgânica com profundidade e coerência.

Mas sua atuação vai além da técnica. Brunna é bruxa de alma antiga, com forte ligação à ancestralidade, aos ciclos e à linguagem como portal. Sua escrita é ritualística, sua presença é intuitiva e seu trabalho parte do princípio de que comunicar é também cuidar — é criar campos de confiança, abrir espaço para o sagrado e firmar digitalmente o que o corpo muitas vezes não sabe nomear.

Mãe, mulher neurodivergente, educadora e artista, Brunna transforma vivências em matéria-prima para narrativas com sentido. Seus textos não são apenas bonitos — são precisos, respeitosos, vivos. Acredita que conteúdo de verdade não serve só para engajar, mas para construir pontes, evocar arquétipos, gerar impacto real e deixar legado.

Atualmente, colabora com agências e marcas que valorizam conteúdo com presença, estratégia com alma e comunicação como campo de cura. E continua firmando um só compromisso: que toda palavra escrita esteja a serviço de algo maior.


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Bem-vinda(o) ao meu espaço, onde compartilho reflexões sobre escrita, estratégia de conteúdo e a potência das narrativas que transformam.

Aqui, divido minha trajetória como estrategista, redatora e copywriter, mas também como mãe, educadora e mulher em constante processo de autoconhecimento.

Acredito que escrever é mais do que comunicar: é criar presença, gerar impacto e deixar legado.

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